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“Precisamos de uma Internacional de movimentos sociais”


Vice-presidente da Bolívia cobra mais iniciativa dos movimentos sociais latino-americanos, pede visão “continentalizada” da esquerda e afirma que o atual processo político ainda não põe a superação do capitalismo em jogo, mas dele emergem ações comunistas no interior da sociedade
18/11/2009

Elena Apilánez e Vinicius Mansur de La Paz (Bolívia)


Álvaro García Linera não é um vice qualquer. Além de acumular o posto de presidente do Congresso boliviano, ele é um dos principais responsáveis pelas articulações políticas do governo de Evo Morales e talvez o mais destacado teórico do processo pelo qual passa a Bolívia atualmente. Sua larga bagagem política e intelectual, além de o credenciar a receber títulos como o “vice-presidente mais atuante do continente” ou o “intelectual mais importante da América Latina na atualidade”, também o capacita para dar largas e aprofundadas respostas, fazendo com que nossa entrevista não chegasse nem à metade das perguntas preparadas. Em meio à atribulada agenda de um vice-presidente e candidato à reeleição em campanha, Álvaro García concedeu ao Brasil de Fato duas rápidas horas de uma conversa pouco factual e mais analítica sobre o processo político que vive a América Latina, em geral, e a Bolívia, em particular.

Brasil de Fato – Um olhar sobre a história política latino-americana indica que, de certa forma, ela se move por ondas. O senhor acha que essa ascensão recente de governos oriundos de organizações com trajetórias de esquerda configura uma nova onda?

Álvaro García Linera – Creio que este é um ciclo muito novo e inovador sem comparação nos últimos 100 anos da história política latino-americana. A única coisa comum no século 20 foram as ditaduras militares. Fora disso, a esquerda teve presença descompassada na região. Processo parecido foi a onda de luta armada, mas não era presença vitoriosa de esquerda; era combativa, resistente, por parte da ala mais radicalizada. A vitória em Cuba trouxe uma leva guerrilheira, que nos anos 1960 estava em todo o continente. Quando a esquerda armada triunfa na Nicarágua, o continente já tinha outros ritmos, outras rotas. Então, pela primeira vez em 100 anos há uma sintonia territorial da esquerda, com governos progressistas e revolucionários. A direita já tinha essa habilidade de “continentalizar” suas ações.

Quais elementos dão unidade a essa sintonia?

O que permitiu a leva de governos progressistas foi o ciclo neoliberal. Ciclo que, mais ou menos, golpeou todos os países de maneira quase simultânea em seus efeitos e defeitos. O atual processo é muito inovador por seu caráter “continentalizado” de esquerda, pela busca de políticas pós-neoliberais – umas mais radicais, outras menos –, por ser um ascenso da esquerda através da via democrática-eleitoral, por ser a primeira vez que ela projeta estratégias de caráter estrutural coordenadas a nível continental. Antes, a esquerda tinha um olhar sobre o continente em termos da conspiração revolucionária. Nunca em termos de economia, de comércio, de criar um mercado comum, uma defesa comum. É uma série de desafios sobre os quais ela nunca tinha refletido, que tem a ver com o exercício de governo, com sua maturidade de reflexão. E também é inovador porque isso se faz sem um pensamento único de esquerda. Não há um referente comum como a URSS, por sorte; não está a China, melhor ainda. O processo de esquerda são muitas coisas agora. Pode ser marxista ultra-radical, pode ser socialista, pode ser vinculado ao pós-modernismo intelectual, pode ser mais nacionalista... e todos são esquerda. Isso é muito rico, permite uma pluralidade de reflexões, de discursos, de ideias. Não há o modelo a imitar ou uma “igreja” que dita o bom comportamento, como ditava antes. É um momento de reconstrução plural do pensamento de esquerda, ainda primitivo. Mas, temos que ver a história em processos que podem durar 50, 80 anos. Não nos desesperemos por não ter as coisas consolidadas agora, por não termos com claridade um grande programa de esquerda continental e mundial. Isso vai demorar 20 anos pelo menos, depois de várias derrotas, de várias vitórias e outras derrotas. Este é um momento germinal e ainda há pedaços do continente que estão em outro rumo. Isso é normal, inclusive, é possível prever a curto prazo uma volta parcial do pensamento e dos governos de direita em alguns países no continente e não vamos nos assustar. Lutemos contra isso, mas este é um processo longo e lento, vai requerer ainda várias levas de ascenso social e popular que permitam despertar toda a potência desse momento histórico, que ainda não se fez visibilizar totalmente. Ainda faltam novas ondas. Não esqueça que Marx usava o conceito de revolução por ondas. Elas vão e voltam, logo vêm de novo e regressam um pouco. A onda atual é das primeiras, logo haverá um pequeno refluxo à espera de uma nova onda que permitirá, a depender dos homens e mulheres de carne e osso, expandi-la a outros territórios e aprofundar as mudanças que até agora são superficiais, parcialmente estruturais.

Este processo coloca a superação do capitalismo em jogo?

Marx dizia que o comunismo é o movimento real, que se desenvolve diante de nossos olhos, e que supera a ordem existente. Não é uma questão de teoria, de discurso, é questão de realidade. E está claro que a primeira meta pautada pelas forças populares diversas do continente foi, em primeiro lugar, frear o esvaziamento social, democrático e material que caracterizou o processo neoliberal. Esvaziamento material a partir da exteriorização dos excedentes, esvaziamento social com a retirada dos direitos conquistados nos últimos 100 anos e esvaziamento democrático mediante a aterrizagem da doutrina única, liberal e individualista. O segundo momento é de reconstituir e ampliar direitos da sociedade, assumir controles do excedente econômico, expandir a geração da riqueza com sua distribuição. Essas demandas sociais surgem a partir de 1995 e são de caráter democrático-social, no sentido marxista do termo. Ainda não foram atendidas plenamente, como é o tema da terra, entretanto, elas já abriram espaço para demandas mais radicais, mais comunistas, que ainda são incipientes, parciais e fragmentadas. Veja a experiência argentina com a tomada de fábricas, as experiências no Brasil, na Venezuela, as empresas sociais na Bolívia, criadas no nosso governo, reivindicadas pelo povo, ou a potencialização dada às estruturas comunitárias, para buscar um desenvolvimento diferente à economia de escala, com tecnologias alternativas, articulações de produção. Todas elas avançam, têm a experiência de gestão e regridem. Aqui na Bolívia, com a questão da água: existia uma experiência falida [privatização da água em Cochabamba], defende-se a socialização do controle da água, implanta-se outra gestão e, em seguida, ela retrocede. Ou seja, essas potencialidades comunistas da sociedade – porque não há comunismo que não venha da sociedade, não há comunismo de decreto, não há socialismo de Estado, isso é sem sentido – têm ainda uma força muito dispersa, uma presença embrionária, não conseguem coagular, mas estão latentes. Seguindo essa leitura, hoje, em 2009, não estamos diante de uma perspectiva de superação do capitalismo. Dizer outra coisa é nos enganar. Mas emergiram ações da sociedade que apontam para o socialismo, construído pelas próprias classes trabalhadoras. Existem sinais, sementes, aflorações, mas ainda não constituem a razão dominante da sociedade.

E quanto isso amadurecerá?

Em dez, 20 anos? Não se pode definir. O que pode fazer o revolucionário é, a cada sinal de socialismo – como a reapropriação, por parte dos produtores, de sua própria produção com democratização e socialização da tomada de decisões –, reforçá-lo para que se expanda. O dever do comunista é meter-se de cabeça a cada abertura, não inventar o comunismo. O comunismo é a capacidade real do povo de produzir e se associar. Eu tenho a leitura de Marx, ao avaliar a Segunda Revolução Industrial, em 1850, que dizia que serão necessárias dezenas, milhares de lutas, de fracassos, de pequenas vitórias, depois novamente fracassos, para que, da própria experiência da classe trabalhadora, surja a necessidade de associar-se para tomar o controle da produção. E isso é uma visão muito, mas muito otimista do ciclo que está emergindo.

E que importância tem a Alba (Alternativa Bolivariana para as Américas) e a Unasul (União das Nações Sul-americanas) neste cenário latino-americano e como o senhor vê os movimentos sociais nesse processo de integração?

A Unasul é um projeto continental, fruto da surpreendente simultaneidade de governos progressistas em boa parte do continente. Além da luta, estamos discutindo em termos de estrutura, de matéria, de economia, de sociedade, de cultura, de legislação... um grande salto. A esquerda não refletia sobre isso antes e isso é mudar nosso “chip”. Ainda não se escreveu sobre esse tema que, inevitavelmente, tem que entrar no discurso de esquerda. Ele segue sendo assunto dos funcionários das Chancelarias tradicionais, mas não é uma construção desses dinossauros. É uma construção de governantes progressistas que não tem o acompanhamento do intelecto social progressista, que está aí atônito, vendo, pasmo, esse novo ciclo. Tal projeto de integração tem que tomar em conta a unanimidade dos critérios de cada país, sendo um processo lento, estrutural. A perspectiva é boa, mas a velocidade é lenta, como tem que ser um bom processo de integração, não há que se desesperar. A União Européia está aí há pelo menos 30 anos e ainda está se construindo. Construir Estados-continente é complexíssimo, mas esse é o rumo do mundo no século 21, isso é o que vai contar no movimento de tomada de decisões econômicas.

E a Alba?

É diferente, porque é uma iniciativa de governos progressistas muito mais afins, o que permite maior velocidade em relação à Unasul. Tanto Mercosul como Alba deveriam dissolver-se no interior da Unasul, mas isso vai demorar décadas. Alba e Mercosul são estruturas de ação imediata. Vão assumir um conjunto de tarefas mais rapidamente e mais efetivamente. A Alba está articulando várias coisas ligadas à economia, usando regras que, pela afinidade política, não podem ser tomadas em outro cenário, levando adiante articulações e arranjos econômicos não baseados historicamente em relações de mercado. Ainda muito incipiente, mas, no caso de Bolívia e Venezuela, há um conjunto de atividades econômicas que já não estão necessariamente reguladas pelo mercado. Tem como parâmetro máximo o mercado, mas tentam construir intercâmbios comerciais a partir de outros critérios. São esforços audazes de complementaridade, como acontecem com os setores têxteis, do petróleo e da soja. A Venezuela tem relações parecidas com Cuba e Nicarágua. Não é retórica falar de processos crescentes de busca de outros mecanismos de integração não baseados em regulações de mercado. O recente passo do Sucre [sistema monetário comum da Alba], como um mecanismo de pagamentos entre os países, pode ser um novo piso nessa construção de algo muito novo, que não há em nenhuma outra parte do mundo. Outro passo são as empresas gran-nacionais, pertencentes aos Estados, que darão um olhar de gestão da economia de maneira regionalizada e unicamente organizada entre os países. Creio que a Bolívia vai dar esse primeiro passo da empresa gran-nacional com a Venezuela em um prazo muito curto. As condições materiais estão dadas.

E qual papel jogam os movimentos sociais nesse processo de integração?

Creio que a articulação deles em nível continental e sua participação nesses processos de integração é ainda muito incipiente. O neoliberalismo fragmentou tudo e reduziu as articulações a uma união via ONGs. Não era uma articulação autônoma. Hoje começa haver um encontro cara-a-cara de companheiros que se convidam, mas ainda avançaram pouco. Temos que ir além dos fóruns, que foram importantes nos anos 1990 para juntar 1990, rompendo as suscetibilidades de direções e de hegemonias, mas muito débeis, frouxos em seus discursos. A tomada de ações vinculantes não foi feita por nenhum dos fóruns. As pessoas retornavam para suas casas para arrumar seus papéis para convocar outro fórum. Necessitamos de uma estrutura bolchevique, que o MST tem, do movimento social. Isso tem que vir deles, não dos governos. Ainda não se criou uma plataforma continental dos movimentos sociais. Sei que isso é complexíssimo. Digamos que nem ao nível de países isso se dá, porque isso acontece em momentos espetaculares. A pauta de nacionalizações, por exemplo, dá lugar a revoluções. Mas precisamos desse esforço de nos olharmos como continente, não somente acompanharmos as ações dos presidentes. Quando há reunião da Alba, os movimentos sociais se reúnem e debatem temas complementares aos dos presidentes, melhor ainda quando os temas debatidos entre presidentes foram previamente discutidos com lideranças. Mas é necessário ir além. É dificílimo, mas talvez seja hora de projetar uma internacional continental de movimentos sociais, uma estrutura como uma internacional comunista, mas de movimentos sociais, continental e depois pensar em ir para o mundo. Diante da possibilidade de que em algum país de nosso continente a direita retome o governo, como eles não vão pautar uma mobilização? Ao fim e ao cabo, se essa leva progressista for para trás, quem mais sofrerá serão os movimentos. Eles estão obrigados a pensar continentalmente e devem defender e empurrar mais para lá esses processos. O século 21 exige novos compromissos, maiores ações e a melhor experiência a ser resgatada está nas reflexões de Marx sobre a Primeira Internacional, onde se juntaram partidos, sindicatos, agremiações, marxistas, anarquistas, socialistas... articulavam-se continentalmente com debilidade, mas com firmeza e vinculação de suas decisões. É melhor do que a Internacional leninista, e talvez a melhor referência para uma Internacional hoje não seja bolchevique, mas a comunista de Marx em seu debate fascinante com Bakunin [Mikhail Bakunin, um dos intelectuais fundadores do anarquismo]. Como se toma as decisões? É pela autoridade moral das organizações, dizia. Não se obriga a ninguém, mas todos estão comprometidos a cumprir o que decidiram. Precisamos de um novo passo já nessa década: uma internacional de movimentos sociais com maior capacidade de vinculação em suas decisões, de mobilização desde os países e com uma agenda comum debatida continentalmente por eles para defender esse processo, para controlá-lo e radicalizá-lo.

Seria necessário um ponta de lança para isso?

Modéstia à parte, creio que a Bolívia é a experiência mais avançada de movimentos sociais.

Mais do que o Brasil?

Sim. É um país menor, evidentemente, com menos gente. Mas a eficácia política-estatal do movimento é a mais radical no continente.

Essa é a originalidade do processo boliviano?

Acho que sim. Tudo isso aqui é movimento social.

No Estado?

No Estado, por fora do Estado, por baixo do Estado, por cima do Estado. Essa é uma grande discussão, temos que fazê-la. Nos causou muito dano o debate de John Holloway [do livro “Mudar o mundo sem tomar o poder”] e Marcos del Rojo, não? Eu tenho profundas discordâncias, mas respeito os companheiros. Mas tem que haver uma aliança de movimentos sociais continentais fortes que sejam os articuladores. Tem que haver uns quatro, cinco ou seis que se lancem, de maneira muito respeitosa, com democracia de base, e que articulem o debate com os demais, mas alguém tem que dar o primeiro passo, e logo.

Esse seria o sujeito revolucionário na América Latina?

O sujeito revolucionário é o que faz a revolução. Não há uma predestinação para definir quem será, esse foi o grande erro do debate ocioso da esquerda, desde antes dos anos 1950. Diziam ”esse é o que vai fazer a revolução” e seguiam esperando que o sujeito se movesse, mas ele estava em outra. Paranóico, não? O que está claro é que o sujeito revolucionário vem do mundo do trabalho sob a forma de camponês, de comunário, de indígena, de operário, de jovem, de intelectual, de integrante de associações de bairros. Isso não contradiz as reflexões de Marx, segue sendo o mundo trabalho, que se complexificou infinitamente frente ao que ele conheceu. Dependendo de qual desses espaços do mundo do trabalho assume maior protagonismo, o processo tenderá a visualizar um aspecto em detrimento de outros. Se é o mundo indígena e camponês, se visibilizará o tema da terra, da biodiversidade, e não o salarial. Em seu momento voltará a emergir o mundo do trabalho sob sua forma salarial, daqui a alguns anos, porque estamos em um processo de reconstrução do mundo salarial no continente e sua formação e estabilização vai requerer décadas. Ou se é mais do tipo de bairro, se visualizará o tema de necessidades básicas... mas são trabalhadores, como aconteceu em Cochabamba. Quem fez a Guerra da Água eram trabalhadores, mas não se moviam como sindicato de trabalhadores, se moviam como moradores. Mover-se como trabalhadores era ser demitido da fábrica. Canalizaram sua expectativa de outra forma. Não há que esperar que o operário da fábrica se una em sindicato para falar do protagonismo do mundo laboral. Ele se move de múltiplas formas, veja os sem-terra. No caso do Brasil, está claro que na medida em que há uma recomposição da produção – o Brasil, agora, como México, Filipinas, Coreia e outros seis ou sete lugares, é a oficina de produção do mundo – não haverá eficácia político-estatal do movimento social sem protagonismo forte desse mundo assalariado. Existe o Movimento Sem Terra, com linhas revolucionárias muito fortes – o que é excelente –, que assume a aposta de manter a presença da sociedade na construção de alternativas. Mas pensar um projeto de radicalização aí é também pensar em seu mundo trabalhador. Se o movimento operário não acompanhar o MST, daqui a uma década o que ele vai poder fazer, frente à necessidade que se requer semelhante potência mundial, será pouco.

E no caso da Bolívia?

Aqui, esse mundo do trabalho tem como liderança o movimento camponês-indígena, ainda que o país tenha tido alguns processos de assalariamento muito interessantes. São trabalhadores, criadores de riquezas, que têm estruturas locais associativas, formas de gestão comum da terra, trabalho individualizado, vínculos parciais com o mercado, vínculos não de mercado; e têm o protagonismo. Mas, aí no meio, estão também outros mundos laborais, assalariados, não-assalariados, que se mobilizam, mas com menor intensidade e maior dificuldade. Porém, se não conseguir avançar mais, será porque o movimento operário ainda não conseguiu mobilizar-se. Se esse mar de operários, daqui a cinco, dez ou 20 anos, não conseguir se unificar com identidade e ação coletiva, o movimento atual encontrará um limite. A chave vão ser esses dois braços, até que se reorganize o movimento da classe trabalhadora, que se rearticule diante da recomposição territorial da força de trabalho planetária.

Porém, muito se fala que não é possível entender o processo boliviano com um olhar tradicional de esquerda, com uma formação ocidental. Quais seriam essas limitações?

Não devem se meter com assessores ou algumas ONGs que os assessoram, aí está esse tipo de discurso que tem a ver com uma espécie de moda. Na central de trabalhadores camponeses, nas comunidades ou no movimento indígena em seus níveis intermediários e de base, não há esse debate falso. Muitos dos que seguem essa linha ajudam muito com seu trabalho, mas são parte de uma espécie de ressaca. Antes estavam envolvidos com uma esquerda tradicional e aderiram recentemente ao mundo indígena, o que os levou a radicalizar seus pontos de vista ostentosamente. Entende-se esse tipo de reação na medida em que, durante muito tempo, a esquerda tradicional aqui desdenhou o movimento indígena, os acusou de querer voltar a tempos arcaicos ou chamou-os de pequenos burgueses, resposta clássica dessa esquerda. Então, uma inteligência indígena se formou nos anos 1970, 1980 e 1990, como a figura de Fausto Reinaga, em rechaço a essa leitura bem primitiva. Essa inteligência se formou em batalhas contra a direita e também contra a esquerda, que repetia processos de discriminação, que dizia que a revolução era dos operários. Os camponeses eram a massa de apoio que levaria os operários nos ombros. Em cima deles, iriam os intelectuais, não era assim? Então, parte de uns convertidos recentes segue pensando nisso. Agora, no governo, nos debates da federação de camponeses ou na dos cocaleiros, há um processo rico dessa vertente camponesa-agrária-indígena com um novo marxismo. Nós lutamos por isso por mais de 20 anos. Eu briguei com todos os esquerdistas. Os primeiros textos que escrevi há 30 anos foram para brigar com trotskistas, stalinistas, maoístas, e todos me qualificaram de revisionista, de ignorante. Buscávamos um encontro entre marxismo e indianismo e acho que foi frutífero. Reivindico minha vertente marxista, às vezes me reivindico indianista, ainda que não seja indígena, e daí?

Como se encontraram essas vertentes?

O indianismo teve a grande virtude de denunciar a colonialidade do Estado – e não poderia vir de outros que não eles –, mas era impotente na questão do poder. Diziam “todos eram índios” e temos “que indianizar o Estado”. Muito bem, e como se faria isso? O seu discurso era denunciativo, mobilizador, mas somente denunciativo. A vertente marxista pautava o tema do poder, mas com suas incompreensões, o fazia à margem do movimento indígena, portanto, era um tema de elites. Assim, era impossível definir uma estratégia discursiva e de alianças que permitisse o acesso ao poder. Mas, no fim do século 20, indianismo e marxismo se fundem.

Essa é a originalidade do processo boliviano?

Em termos de discurso e de criação teórica-intelectual, sim. Isso permitiu criar um cenário de estratégia. Em termos de ação política, é a grande mobilização de massas: sublevações, bloqueios, marchas, levantamentos, insurreições.

E esse discurso tem muita distância com o discurso que há hoje?

Não, de jeito nenhum. Vou contar o que aconteceu com o Evo, quando iniciamos o programa Juancito Pinto [que dá bolsa aos estudantes do ensino fundamental], em 2006. Fomos entregá-lo no norte de Potosí [departamento no oeste boliviano]. Um jovem do campo se aproximou e perguntamos: “Como está? Em que série está?”. “Estou no terceiro básico, tenho oito anos”, disse. “E o que você fez com o seu bônus?”, perguntamos. “Estou guardando para me preparar para ser presidente como você”. Ah, por favor... É a melhor resposta que poderia dar. Quando um indígena coloca como possibilidade de vida ser governante, o tema do poder se converte em um feito próprio, porque era uma questão de submissão! O poder era de poucos brancos e formados, e agora um camponês do norte de Potosí, a zona mais pobre do país, dizia “eu também posso ser presidente”. Temos aí uma revolução cultural.

Há um simbolismo forte aí, mas até que ponto as bases realmente estão discutindo as transformações políticas? Qual é a proximidade das bases e da intelectualidade?

São espaços diferentes. Há o mundo da academia, que recebe para pensar 24 horas, e o mundo da vida laboral, associativa, sindical, do movimento camponês. Espaços diferentes que possuem canais de comunicação e distintas linguagens. No tema das alianças: a academia pode falar de bloco de poder, pode usar Gramsci, enquanto do outro lado a discussão é apoiar ou não os moradores desse bairro, se apoiamos ou não alguma candidatura. É o mesmo tema verbalizado de distintas maneiras. As mesmas preocupações da base são levadas para a academia e, na academia, de tudo que se reflete, poucas coisas são debate nas bases. Mas existem momentos em que eles se aproximam mais, criando um espaço de intervenção maior; e aí são os grandes ascensos. Quando a reflexão dessa intelectualidade progressista é o debate das assembleias. Quando o que surge em um jornal, em algum panfleto, em algum discurso, rapidamente é retomado pelos níveis dirigentes e levado à base. Essa é a dinâmica. É impossível isso ser permanente, porque são espaços diferentes no tempo e na forma de vida. Creio que em nenhuma parte isso se deu. A imagem que temos dos sovietes e do Partido Bolchevique está um pouco idealizada. O fato de que nas fábricas os operários liam Lênin não era verdade. Pensar essa fusão do espaço intelectual com o movimento social é impossível. Existem aí vasos comunicantes fluidos que levaram, inclusive, o âmbito intelectual a mudar em dez anos. O que debatiam os intelectuais antes? Governabilidade e coisas assim. Hoje debatem na universidade pública, e até nas privadas, a nova Constituição. Mesmo os setores conservadores têm que refletir sobre os fatos, tem que saber como o Direito Penal vai estar vinculado com a Nova Constituição. Hoje existem vasos comunicantes. Em certos momentos são rios comunicantes, ou fusões parciais, e logo separações, como em qualquer processo de transformação; outra vez. por ondas. Nada é definitivo, perpétuo ou já dado. A ideia de revolução permanente não é tão certa. Estes oito anos intensos na Bolívia demonstram essa dinâmica de ondas que falava Marx, mais do que o linear que nos dizia Trotski.

E como você avalia o protagonismo das mulheres na Bolívia?

O que está claro é que as mulheres têm uma forte presença no movimento indígena aqui, fazendo-se respeitar gradualmente com muitas dificuldades porque o movimento tem estruturas machistas. O presidente Evo, a cada dia, está recordando e convocando as mulheres a romper essas muralhas. Mas é onde mais se desenvolveu sua presença, mesmo que ainda lhe falte muito. E, no caso da classe trabalhadora, a metade da força de trabalho é mulher, jovem, mas o sindicalismo ainda é velho. Não dá espaço a elas, não as reconhecem e as mulheres preferem mover-se como estudantes, integrantes de associações de bairro ou donas de casa, ainda não como trabalhadoras. Vai ser necessário um grande processo em que se modifique o sindicato herdado, uma estrutura hierarquizada por gênero. Só um sindicato que modifique a questão dos horários, dos discursos, porque esses são mecanismos que anulam as mulheres, vai permitir reorganizar esse novo mundo do trabalhador jovem, feminizado pela presença de mulheres. O sindicato precisa ser apoiado por muitas partes para tomar outra modalidade organizativa e, sem mulheres, não vai haver movimento sindical, porque o velho movimento sindical masculinizado desapareceu.


Desapareceu?

Não no sindicato. Mas a condição masculina para ser trabalhador desapareceu e o sindicato que se construiu no século 20 correspondia a essa condição. Por isso, ele não dialoga com essa nova condição operária. As práticas, o discurso, o saber, a dinâmica desse novo mundo trabalhador, jovem e com muitas mulheres, não entra nas estruturas masculinizadas. Precisamos de novas estruturas e isso vai tardar 20 anos. Há que se ver a história a longo prazo, temos um mundo por ganhar neste século.

E o movimento estudantil na Bolívia hoje?

Não há movimento estudantil hoje. Existiu nos anos 1970, assumindo a liderança nas marchas, mobilizações, no debate público, na construção de assembleísmo, de democracia radical de base, de vinculação com as lutas populares. O momento culminante foi em 1983 e 1984. Mas há que se estudar a modificação da composição social dos universitários. Creio que isso é em todo o continente. Nos anos 1970 e 1980, a universidade pública estava composta por estudantes de classe média e média-alta. Pessoas que tinham certa estabilidade econômica, que não estavam buscando um ascenso social, senão uma estabilização e uma continuidade de sua condição. Portanto, tinham mais tempo para os estudos, para a mobilização e, em seu objetivo geracional, não havia competição por ascenso social. Nos anos 1980, começa s ampliação dos setores populares nas universidades. Em 1980, eram 60 mil estudantes em universidades públicas da Bolívia, no ano 2000, já eram 300 mil. A incorporação dessas classes populares traz consigo a ilusão do ascenso social via educação. Uma ilusão, mas uma ilusão bem fundada. Então, esses estudantes entram com outra vontade: não estão ali para ver o tempo passar, não vêm para consolidar sua condição social, vêm para buscar a ascensão. Seu ser social na universidade tem outra intencionalidade. Então, não tem tempo para assembleia, porque têm que trabalhar e estudar. Alguns demoram uma hora caminhando desde El Alto, depois têm que ir de novo a trabalhar, têm que cuidar dos filhos, dar atenção à família, não há processo de nucleamento dentro da universidade. Não estão aí para reclamar maior democracia no âmbito universitário. A eles, interessa o diploma o mais rápido possível. Porque precisa disso para o seguinte passo. Na década de 1970, eram outras expectativas materiais. Hoje, eles querem reconhecimento profissional e classista que lhes permita passar à outra classe.




Nascido em Cochabamba, em 1962, Álvaro García Linera é formado em matemática na Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM) e sociólogo autodidata. Ao regressar de seus estudos, começa sua militância na Bolívia, vinculado às Células Mineiras de Base, grupo que se funde aos Ayllus Rojos nas atividades de propaganda e organização de comunidades do altiplano. Posteriormente, ingressa no Exército Guerrilheiro Túpac Katari (EGTK) – uma das poucas forças guerrilheiras propriamente indígenas da América Latina –, onde é destacado para atuar com formação política e pesquisa de comunidades indígenas. Em 1992, é preso, acusado de sublevação e levantamento armado, ficando encarcerado por cinco anos, tempo em que escreve uma de suas principais obras, o livro “Forma valor e forma comunidade”. Ao ser libertado, é convidado para ser professor do curso de sociologia da Universidad Mayor de San Andrés (UMSA), a universidade pública de La Paz. Em 2006, assume a vice-presidência, ao lado do presidente Evo Morales, pelo Movimento ao Socialismo (MAS).

Brasil de Fato

Blog Marighella Vive 1969-2009


Venezuela recupera rádios para o serviço público


A mídia comercial brasileira, copiadora número um da matriz CNN bombardeou os leitores/espectadores/ouvintes com críticas ao governo venezuelano

Elaine Tavares
Blog da Elaine
Fonte: Brasil de Fato

A mídia comercial brasileira, copiadora número um da matriz CNN, que transmite em espanhol, para toda a América Latina, bombardeou os leitores/espectadores/ouvintes com críticas ao governo venezuelano que, na semana passada, encerrou a transmissão de 34 emissoras de rádio naquele país. Não faltaram os comentários raivosos sobre a “ditadura chavista” e muito menos as entrevistas - à exaustão - com os representantes da direita golpista da Venezuela falando da “falta de democracia” de Hugo Chávez.
O que a maioria dos veículos não disse - e se disse foi de forma superficial – é que estas emissoras estavam irregulares perante a lei de radiodifusão. Algumas delas seguiam funcionando mesmo depois que os legítimos possuidores da concessão já haviam falecido, sendo utilizada a conhecida figura do “laranja”. Conforme a lei daquele país, isso não é possível. As ondas eletromagnéticas são uma concessão pública e cabe ao Estado fazer cumprir a lei, caso contrário cai por terra o conceito liberal de “estado democrático e de direito”. Mas, aos liberais, isso, vindo de Chávez, é ditadura. Coisa difícil de entender, não?
Outra informação que a mídia não dá de forma clara é que as freqüências, que funcionavam de forma ilegal e que foram retomadas pelo Estado, passarão por nova licitação e devem ser entregues às entidades comunitárias, para que voltem a apresentar o caráter público que deviam ter. Segundo o ministro de Obras Públicas y Vivienda, Diosdado Cabello, a anulação das concessões se deu não só naquelas em que o titular já havia falecido, mas também nas que estavam com a validade da concessão vencida e sequer se dignaram a comparecer ao órgão responsável por esta questão, a Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel) durante o período que havia sido indicado através de correspondência, demonstrando completo desrespeito com a lei.
O Ministro também informou que existe na Conatel um número muito grande de pedido de concessão e que agora o órgão deve abrir novas licitações. O presidente venezuelano Hugo Chávez afirmou que não há qualquer ataque a liberdade de expressão, pelo contrário, os veículos foram devolvidos ao povo, uma vez que não cumpriam com suas obrigações.
Mas, o certo é que este ato ainda vai render muito pano para manga, principalmente nos grandes veículos de comunicação do chamado “mundo livre”, o qual só considera liberdade de expressão a sua própria. Já cumprir a lei e verdadeiramente democratizar a comunicação passa a ser coisa de “ditador”. Ninguém na televisão foi capaz de informar que no Brasil existem centenas de emissoras comerciais funcionando com a concessão vencida, enquanto as rádios comunitárias seguem sendo estouradas pela Anatel.
Só para lembrar, recentemente o ministro do STF, Gilmar Mendes, acabou com a exigência do diploma para a profissão de jornalista justamente em nome da chamada “liberdade de expressão” dos donos de empresas. Não é à toa que, de maneira hipócrita, os bocas-alugadas estejam fazendo discursos inflamados contra a decisão do governo venezuelano. Já pensou se aqui no Brasil o governo decidisse cumprir a lei? Só em Santa Catarina tramita um processo contra a poderosa Rede Brasil Sul de Comunicação - que, de forma aberta e pública se expressa como um oligopólio - mas caminha a passos lentos. E tudo o que se quer é que a Constituição seja cumprida. Mas, quando ela vai contra os poderosos aí fica parecendo que é coisa de “ditador”. No mundo liberal burguês a lei só se cumpre contra os pobres.

*Eliane Tavares é jornalista

Carta aberta do Povo Brasileiro ao Conselho de Segurança da ONU

Nós povo brasileiro organizados nos movimentos sociais, sindicatos, partidos, centrais sindicais, organizações sociais e demais entidades estamos envergonhados pelo triste papel que as tropas militares através da Missão de Estabilização do Hati – Minustah, vêm desempenhando no Haiti. Não se tem notícia na história da humanidade que uma tropa de ocupação estrangeira tenha contribuído na melhoria das condições de vida de um povo. E muito menos na sua libertação!

A presença das tropas brasileiras no Haiti é inaceitável. Além de nos envergonhar como povo, fere duramente a soberania do heróico povo haitiano, que sofre todas as mazelas de anos de exploração. Nosso apoio deve ser material, de intercâmbio educacional e cultural, jamais militar.

O que as Nações Unidas estão gastando (cerca de 600 milhões de dólares por ano) para manter as tropas no Haiti. Essa quantia é mais do que o necessário para resolver os problemas fundamentais de seu povo: a falta de energia, alimentos, moradia, educação e emprego.

Nesses quatro anos, não há notícias de nenhuma melhoria nas condições de vida dos haitianos Pelo contrário, há inúmeros registros de violação dos direitos humanos pelas próprias tropas estrangeiras que invadiram o país. Nós, como movimentos sociais brasileiros, nos dispomos a ajudar da forma que o povo do Haiti solicitar.

Sabemos que o Conselho de Segurança da ONU até o dia 15 de outubro de 2009 irá votar a renovação ou não do mandato da Minustah. Pelo que foi afirmado, os que abaixo assinam, nos pronunciamos pela imediata retirada das tropas brasileiras da MINUSTAH e do território haitiano. E por sua vez, exigimos da ONU que cesse esta missão de ocupação e de violação dos direitos do povo de Haiti.

Assinam:

Casa da America Latina
Conlutas
Coletivo de Hip Hop LUTARMADA
Instituto dos Defensores dos Direitos Humanso - IDDH
Instituto Politicas alternaivas para o Cone SUl - PACS
Jubileu Sul Brasil
Justiça Global
Movimento Revolucionário Nacionalista-Círculos Bolivarianos
Movimento Sem Terra
Movimento Consulta Popular
Mandato Marcelo Freixo
Direito para Quem


Para assinar envie um e-mail para: leohaua@yahoo.com.br

Invasão de Gaza

"Operação Chumbo Fundido", parte de uma agenda mais ampla dos militares e serviços secretos israelenses
por Michel Chossudovsky

Os bombardeamentos aéreos e a presente invasão de Gaza pelas forças terrestres israelenses têm que ser analisados num contexto histórico. A operação "Chumbo Fundido" ("Cast Lead") é uma missão cuidadosamente planeada que, por sua vez, faz parte de uma estratégia militar-serviços secretos formulada pela primeira vez em 2001:

"Fontes do 'establishment' da defesa disseram que o ministro da Defesa Ehud Barak deu instruções às forças de defesa israelenses para se prepararem para a operação, há mais de seis meses, na altura em que Israel estava a começar a negociar um acordo de cessar fogo com o Hamas". (Barak Ravid, Operation "Cast Lead": Israeli Air Force strike followed months of planning [Operação "Chumbo Fundido". O ataque da Força Aérea israelense vem na sequência de meses de preparativos], Haaretz, 27 de Dezembro, 2008).

Foi Israel quem quebrou as tréguas no dia das eleições presidenciais americanas, a 4 de Novembro:

"Israel serviu-se desta diversão para quebrar o cessar-fogo com o Hamas, bombardeando a faixa de Gaza. Israel declarou que esta violação do cessar- fogo pretendia impedir o Hamas de escavar túneis no território israelense.

Logo no dia seguinte, Israel desencadeou um cerco terrorista a Gaza, impedindo a entrada de alimentos, combustível, medicamentos e outros bens necessários na tentativa de "subjugar" os palestinianos, enquanto simultaneamente efectuava incursões armadas.

Em resposta, o Hamas e outros em Gaza voltaram a alvejar Israel com projécteis de petróleo inflamado, artesanais e quase sempre imprecisos. Durante os últimos sete anos, estes projécteis causaram a morte de 17 israelenses. Durante o mesmo período de tempo, os ataques relâmpago de Israel mataram milhares de palestinianos, suscitando um protesto mundial que caiu em orelhas moucas nas NU". (Shamus Cooke, The Massacre in Palestine and the Threat of a Wider War, Global Research [O Massacre na Palestina e a Ameaça de uma Guerra Mais Ampla], Global Research, Dezembro, 2008).

DESASTRE HUMANITÁRIO PLANEADO

A 8 de Dezembro, o vice-secretário americano de Estado, John Negroponte, esteve em Tel Aviv para discussões com os seus homólogos israelenses, incluindo o director do Mossad, Meir Dagan.

A "Operação Chumbo Fundido" iniciou-se dois dias depois do Natal. Foi acompanhada de uma campanha internacional de Relações Públicas, cuidadosamente planeada, sob os auspícios do ministro dos Estrangeiros de Israel.

O principal objectivo não são os alvos militares do Hamas. A operação "Chumbo Fundido" pretende, deliberadamente, provocar baixas civis.

Trata-se de um "desastre humanitário planeado" em Gaza.

O objectivo a mais longo prazo deste plano, conforme formulado pelos políticos israelenses é a expulsão dos palestinos das terras palestinas:

"Aterrorizar a população civil, garantindo a destruição máxima de propriedades e recursos culturais? A vida diária dos palestinianos tem que se tornar insuportável: Têm que ser encerrados nas cidades e aldeias, impedidos de exercer a sua vida económica normal, afastados dos locais de trabalho, das escolas e dos hospitais. Isso encorajará a emigração e enfraquecerá a resistência a futuras expulsões" (Ur Shlonsky, citado por Ghali Hassan, Gaza: The World's Largest Prison [Gaza: A Maior Prisão do Mundo], Global Research, 2005)

"OPERAÇÃO VINGANÇA JUSTIFICADA"

Chegou-se a um momento decisivo. A operação "Chumbo Fundido" faz parte duma operação militar-serviços secretos mais ampla, iniciada no começo do governo de Ariel Sharon em 2001. Foi na "Operação Vingança Justificada" que os aviões de guerra F-16 foram inicialmente utilizados para bombardear cidades palestinas.

A "Operação Vingança Justificada" foi apresentada em Julho de 2001 ao governo israelense de Ariel Sharon pelo chefe do estado-maior do exército israelense, Shaul Mofaz, com o título "A Destruição da Autoridade Palestina e o Desarmamento de Todas as Forças Armadas".

"Em Junho passado [2001] foi concebido um plano de contingência, com o nome de código Operação Vingança Justificada, para reocupar toda a Margem Ocidental e possivelmente a Faixa de Gaza com um custo provável de 'centenas' de baixas israelenses". ( Washington Times, 19 de Março, 2002).

Segundo a [consultoria britânica] Jane's Foreign Report (12 de Julho, 2001), o exército israelense de Sharon actualizara os seus planos para um "ataque total a fim de esmagar a Autoridade Palestina, expulsar Yaser Arafat e matar ou capturar o seu exército".

"JUSTIFICAÇÃO DO BANHO DE SANGUE"

A "Justificação do Derramamento de Sangue" era um componente essencial deste plano. A matança de civis palestinos era justificada por "razões humanitárias" como resposta aos ataques suicidas:

O assalto será desencadeado, quando o governo entender, após um grande ataque bombista suicida em Israel, que provocar muitos mortos e feridos, citando o derramamento de sangue como justificação. (Tanya Reinhart, Evil Unleashed, Israel's move to destroy the Palestinian Authority is a calculated plan, long in the making . [Diabo à Solta, acção de Israel para destruir a Autoridade Palestina é um plano calculado, há muito em acção]. Global Research, Dezembro de 2001).

O PLANO DAGAN

Esta operação também é conhecida por "Plano Dagan", de Meir Dagan, que chefia actualmente o Mossad, a organização de serviços secretos de Israel.

O general na reserva Meir Dagan foi conselheiro de segurança nacional de Sharon durante a campanha eleitoral de 2000. Segundo parece, o plano foi formulado antes da eleição de Sharon para primeiro-ministro em Fevereiro de 2001. "Segundo o artigo de Alex Fishman no Yediot Aharonot, o Plano Dagan consistia em destruir a autoridade palestina e em pôr Yaser Arafat 'fora de jogo'." (Ellis Shulman, "Operation Justified Vengeance": a Secret Plan to Destroy the Palestinian Authority . ["Operação Vingança Justificada": um Plano Secreto para Destruir a Autoridade Palestina], Março de 2001):

"Conforme noticiado no Foreign Report [Jane] e revelado localmente por Maariv, o plano de invasão de Israel - alegadamente baptizado de Vingança Justificada ? será desencadeado imediatamente a seguir às próximas explosões bombistas suicidas que provoquem elevadas baixas, durará cerca de um mês e provavelmente provocará a morte de centenas de israelenses e de milhares de palestinos (Ibid.).

O plano Dagan também previa a chamada "cantonização" dos territórios palestinos em que a Margem Ocidental e Gaza ficarão completamente separadas uma da outra, com "governos" independentes em cada um dos territórios. Neste cenário, já encarado em 2001, Israel:

"negociará em separado com as forças palestinas dominantes em cada território palestino, com as forças responsáveis pela segurança, pelas informações, e até mesmo com o Tanzim (Fatah)". O plano é pois parecido com a ideia da "cantonização" dos territórios palestinos, adiantado por uma série de ministérios". (Sylvain Cypel, The infamous 'Dagan Plan' Sharon's plan for getting rid of Arafat [O "Plano Dagan", o vergonhoso plano de Sharon para se ver livre de Arafat], Le Monde, 17 de Dezembro, 2001).

O Plano Dagan manteve-se em vigor, apesar das mudanças de governo na sequência das eleições de 2000. Meir Dagan foi encarregado de um papel fundamental. "Tornou-se o 'intermediário' de Sharon em questões de segurança junto dos enviados especiais do presidente Bush, Zinni e Mitchell". Subsequentemente foi nomeado director do Mossad pelo primeiro-ministro Ariel Sharon em Agosto de 2002. Manteve-se chefe do Mossad e foi reconfirmado no seu cargo como director dos Serviços Secretos Israelenses pelo primeiro-ministro Ehud Olmert em Junho de 2008.

Meir Dagan, em coordenação com os seus homólogos americanos, tem sido o responsável pelas diversas operações militar-serviços secretos, incluindo o assassinato de Yaser Arafat em 2004. Vale a pena assinalar que Meir Dagan, quando era um jovem coronel, trabalhou estreitamente com o Ministro da Defesa Ariel Sharon nos ataques a colonatos palestinos em Beirute em 1982. Os ataques de 2008-2009 em Gaza, em muitos aspectos, têm uma grande semelhança com as operações militares de 1982.

CONTINUIDADE: DE SHARON A OLMERT

É importante focar uma série de acontecimentos chave que conduziram à matança em Gaza, com a "Operação Chumbo Fundido":

1. O assassinato em Novembro de 2004 de Yaser Arafat. Este assassinato esteve sempre em cima da mesa desde 1996, com a "Operação Campos de Espinhos". Segundo um documento de Outubro de 2000, "preparado pelos serviços de segurança, a pedido do então primeiro-ministro Ehud Barak, afirmava-se que 'Arafat, em pessoa, é uma séria ameaça para a segurança do estado [de Israel] e o prejuízo que resultar do seu desaparecimento é menor do que o prejuízo causado pela sua existência. (Tanya Reinhart, Evil Unleashed, Israel's move to destroy the Palestinian Authority [Diabo à Solta, acção de Israel para destruir a Autoridade Palestina é um plano calculado, há muito em acção]. Global Research, Dezembro de 2001. Pormenores do documento foram publicados em Ma'ariv, 6 de Julho, 2001).

O assassinato de Arafat foi decidido em 2003 pelo ministério israelense. Foi aprovado pelos EU que vetaram uma Resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas condenando a decisão de 2003 do ministério israelense. Em resposta ao crescendo dos ataques palestinos, em Agosto de 2003, o ministro da Defesa israelense, Shaul Mofaz declarou "guerra total" aos militantes a quem jurou "marcados para a morte".

Em meados de Setembro, o governo de Israel aprovou uma lei para se ver livre de Arafat, o ministério dos Assuntos de Segurança Política de Israel declarou que era "uma decisão para afastar Arafat, um obstáculo para a paz". Mofaz ameaçou: "iremos escolher o caminho certo e a altura certa para matar Arafat". O ministro palestino Saeb Erekat disse à CNN que pensava que Arafat seria o alvo seguinte. A CNN perguntou ao porta-voz de Sharon, Ra'anan Gissan, se o voto significava a expulsão de Arafat. Gissan esclareceu, "Não é nada disso. O ministério resolveu hoje afastar este obstáculo. A altura, o método, a forma como isso acontecerá será decidido em separado, e os serviços de segurança vão acompanhar a situação e fazer as recomendações sobre a acção apropriada". (Ver Trish Shuh, Road Map for a Decease Plan [Via para um Plano de Morte], www.mehrnews.com , 9 de Novembro de 2005).

O assassinato de Arafat fazia parte do Plano Dagan de 2001. Com toda a probabilidade, foi efectuado pelos serviços secretos israelenses. Destinava-se a destruir a Autoridade Palestina, fomentar divisões no seio do Fatah e entre o Fatah e o Hamas. Mahmoud Abbas é um quisling palestino. Ele foi instalado como dirigente do Fatah, com a aprovação de Israel e dos EUA, os quais financiam os paramilitares e as forças de segurança da Autoridade Palestina.

2. A retirada em 2005, sob as ordens do primeiro-ministro Ariel Sharon, de todos os colonatos judaicos em Gaza. Foi realojada uma população judaica de mais de 7 000 pessoas.

"'É minha intenção [Sharon] levar a efeito uma evacuação ? perdão, um realojamento ? de colonatos que nos estão a causar problemas e de locais que não iremos manter como colonato final, tal como os colonatos de Gaza? Estou a trabalhar na presunção de que no futuro não venha a haver judeus em Gaza'", disse Sharon". ( CBC, Março, 2004 ).

A questão dos colonatos em Gaza foi apresentado como fazendo parte da "via para a paz" de Washington. Festejado pelos palestinos como uma "vitória", esta medida não foi dirigida contra os colonos judeus. Bem pelo contrário: Fez parte duma operação secreta geral, que consistiu em transformar Gaza num campo de concentração. Enquanto houvesse colonos judeus a viver dentro de Gaza, não era possível concretizar o objectivo de manter um grande território barricado como uma prisão. A implementação da "Operação Chumbo Fundido" exigia que "não houvesse judeus em Gaza".

3. A construção do vergonhoso Muro Apartheid foi decidida logo no início do governo de Sharon (ver mapa).

4. A fase seguinte foi a vitória do Hamas nas eleições de Janeiro de 2006 . Sem Arafat, os arquitectos militar-serviços secretos israelenses sabiam que o Fatah com Mahmoud Abbas iria perder as eleições. Com o Hamas à frente da Autoridade Palestina, e com o pretexto de que o Hamas é uma organização terrorista, Israel poderia levar a efeito o processo de cantonização conforme formulado segundo o Plano Dagan.

ATAQUE TERRESTRE

Em 3 de Janeiro, os tanques e a infantaria israelense entraram em Gaza numa grande ofensiva terrestre:

"A operação terrestre foi precedida por várias horas de fogo de artilharia pesada após o escurecer, incendiando os alvos com chamas que irromperam no céu da noite. Ouvia-se o matraquear das metralhadoras enquanto as brilhantes esferas relampejavam através da escuridão e o explodir de centenas de bombas projectava riscos de fogo. (AP, 3 de Janeiro, 2009).

Fontes israelenses apontaram para uma operação militar prolongada. "Não vai ser fácil e não vai ser rápido", disse o Ministro da Defesa Ehud Barak num comunicado na TV.

Israel não está a tentar obrigar o Hamas "a cooperar". O que estamos a observar é a implementação do "Plano Dagan" conforme inicialmente formulado em 2001, que requeria:

"uma invasão do território controlado pelos palestinos, por cerca de 30 mil soldados israelenses , com a missão claramente definida de destruir a infra-estrutura da direcção palestina e de arrebatar o armamento actualmente na posse das diversas forças palestinas, e de expulsar ou matar os seus dirigentes militares. (Ellis Shulman, op. cit.).

A questão mais lata é se Israel, em conivência com Washington, pretende desencadear uma guerra mais alargada.

Poderá ocorrer uma expulsão em massa em qualquer fase posterior da invasão terrestre, se os israelenses vierem a abrir as fronteiras de Gaza para permitir o êxodo da população. A expulsão foi referida por Ariel Sharon como "uma solução ao estilo de 1948". Para Sharon, "é apenas necessário encontrar outro estado para os palestinos. ? 'A Jordânia é a Palestina' ? foi a frase que Sharon criou". (Tanya Reinhart, op. cit.).

04/Janeiro/2009

O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=11606
Tradução de Margarida Ferreira.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Organização de extrema-direita ronda o Brasil



29/09/2009

Destinada a enfrentar a ascensão de governos progressistas na
América Latina, a UnoAmerica lança bases no país

29/09/2009

Adriano Andrade,
do Rio de Janeiro (RJ)

Uma sombra nebulosa se aproxima do Brasil, de forma sorrateira e silenciosa. Os
efeitos de sua proximidade podem ser mais lamentáveis do que se imagina. No
final de abril, ocorreu no Rio de Janeiro (RJ) a conferência "O Totalitarismo
Bolivariano contra o Estado Democrático de Direito Latino-americano".

Organizada pela Academia Brasileira de Filosofia, pelo Instituto Millenium e
pelo Farol da Democracia Representativa, recebia como principal visitante o
venezuelano Alejandro Peña Esclusa.

Ex-adversário de Hugo Chavez na disputa eleitoral de 1998 – a primeira a
elegê-lo –, ele preside a entidade de extrema-direita União das Organizações
Democráticas das Américas (UnoAmerica). Tratava-se do primeiro passo para a
instalação do capítulo brasileiro do grupo, ainda sem sede no país, mas com
enorme protagonismo de brasileiros.

A iniciativa de fundação da organização teria surgido no Brasil.

Em 2006, Heitor de Paola, atualmente um dos delegados brasileiros da UnoAmerica,
organizou em São Paulo (SP) o "Seminário sobre Democracia e o Império das Leis".

A partir de conversas informais entre ele e Esclusa, decidiu-se
institucionalizar o combate ao que chamam de "eixo-do-mal latino-americano",
composto por todos os governos oriundos de lideranças que fizeram parte do Foro
de São Paulo, nos anos 1990.

Dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil) e Tabaré Vázquez (Uruguai), a
Evo Morales (Bolívia) e Hugo Chavez (Venezuela), todos são considerados
esquerdistas "aliados das Farc" a ser banidos do poder.

Graça Salgueiro é a outra delegada. Junto a Paulo Uebel, diretor executivo do
Instituto Millenium, e João Ricardo Moderno, presidente da Academia Brasileira
de Filosofia, formam o principal time de defensores da organização.

A UnoAmerica nasceu em dezembro de 2008 na cidade colombiana de Santa Fé de
Bogotá. O encontro que nela resultou era derivado de uma suposta "ameaça" vivida
pela Ibero-América (como chamam a América Latina) com o advento de 14 "governos
do Foro de São Paulo".

Segundo seu discurso, os "terroristas" teriam abandonado a luta armada para
aproveitar-se dos mecanismos institucionais e implantar experiências comunistas
na Ibero-América. Para eles, as principais lideranças seriam Lula e Fidel Castro
(Cuba), sendo que Hugo Chavez não passaria "de bucha de canhão".

No evento de abril, o professor Moderno lançou o "Manifesto à Nação Brasileira
contra o Totalitarismo Bolivariano". No texto, descreve que o bolivarianismo
"mantém estreitos vínculos carnais com o narcotráfico, o terrorismo e o
fundamentalismo islâmico".

Nas eleições venezuelanas de 1998, Peña Esclusa teria obtido parcos 0,04% dos
votos. Seus compatriotas se perguntam agora como alguém pouco conhecido em suas
terras circula com tanto prestígio pela Europa Ocidental e como apareceu em
entrevista ao Washington Times, jornal ligado ao ex-presidente estadunidense
Donald Rumsfeld.

Seria porque defende abertamente golpes de Estado? Um influente político
italiano admitiu que foi recomendado a Esclusa por integrantes do Vaticano.
Provavelmente, trata-se do cardeal Renato Martino, presidente do Conselho de
Justiça e Paz.

No Brasil, elogios a Peña Esclusa também apareceram em um dos blogues mais
famosos. Ligado à revista Veja, o blogue de Reinaldo Azevedo é assumidamente um
depositário de ideias de direita.

Nele, o articulista escreveu: "A esquerda latino-americana, incluindo a
brasileira, acusa Esclusa de golpismo, claro.

Não soa familiar? Golpismo, como sabemos, é o outro nome que eles dão à
pluralidade democrática". Os simpatizantes da UnoAmerica não consideram golpe o
que ocorreu em Honduras, com a deposição de Manuel Zelaya.

Ao contrário, dizem que as perspectivas de reversão da "ameaça" vivida pela
Ibero-América residem no país centro-americano.

Embora aparentemente não conte com fartos recursos, a UnoAmerica dá inúmeros
sinais de representar enorme ameaça ao subcontinente. A Marcha Mundial contra
Hugo Chavez, organizada neste mês por meio do site Facebook pela Um Milhão de
Vozes, teria sido fortemente estimulada pela UnoAmerica. A Um Milhão de Vozes
firmou, recentemente, parceria documentada com a UnoAmerica.

Nos textos que escrevem, integrantes da organização deixam escapar sinais de que
teriam apresentado seus projetos a setores das Forças Armadas.

Na Bolívia, a UnoAmerica acusou Evo Morales de promover o massacre de Porvenir
(Pando), onde 20 camponeses foram assassinados. Entregaram à Comissão
Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) denúncias contra o que chamam de crime
de lesa-humanidade. A denúncia foi negada por organismos como a Organização dos
Estados Americanos (OEA) e o Alto Comissariado das Nações Unidas (ONU).

“Tiramos Zelaya porque foi para a esquerda e colocou comunistas no governo’

O líder golpista Roberto Micheletti admitiu que o “único erro” foi a forma de derrubá-lo, ao prendê-lo e depois tirá-lo do país. Mas defendeu a medida, negou tratar-se de um golpe de Estado e acusou Zelaya por corrupção.

A entrevista é de Néstor Restivo e está publicada no jornal argentino Clarín, 30-09-2009. A tradução é do Cepat.

O presidente de fato de Honduras, Roberto Micheletti, recebeu o Clarín na sala Dionísio de Herrera – primeiro presidente do país – da Casa Presidencial. Anoitece em mais um dia agitado. Nas ruas, a “resistência” a favor do presidente Manuel Zelaya, refugiado na Embaixada do Brasil, segue cada vez mais controlada por policiais e militares com a dificuldade de se organizar: os meios de comunicação opositores foram calados. Micheletti disse que no dia 7 de outubro autorizará a OEA para mediar (no domingo foi expulsa uma missão “sem permissão”, disse) e que há negociações internas para sair do pântano. “Há contatos – indica –, mas Zelaya deve submeter-se à Justiça e eu estou disposto a renunciar, no marco da Constituição”.

A proposta de San José, do presidente Oscar Arias, inclui a restituição condicionada de Zelaya.

É apenas uma iniciativa, não venham a dizer-nos o que devemos fazer.

Há negociações, ou buscam ganhar tempo até a eleição de novembro? A comunidade internacional já disse que não reconhecerá essa eleição convocada por vocês.

As eleições estão marcadas desde 2008.

Não procuram ganhar tempo expulsando a OEA?

Uma missão assim pode entrar na Argentina, sem documentos? Não tinham permissão. Somos um país soberano, que fique bem claro.

Por que o Exército fechou os meios de comunicação opositores?

Foi em base ao decreto (de estado de sítio). Incitavam à violência e à guerrilha.

Seu regime está totalmente isolado, até do FMI.

E por isso devemos resignar a nossa dignidade? Vocês, na Argentina, não foram à guerra das Malvinas por dignidade, sem importar a pressão externa?

Era uma ditadura militar.

Independente do que seja. A dignidade nacional existe. Terias permitido que Zelaya fizesse o que fez?

Depor um presidente é um golpe de Estado.

Nosso único erro foi tirá-lo da forma como o destituímos. No resto, agimos conforme a lei. Ele violava a Constituição ao buscar uma Constituinte para uma reeleição. Se o prendêssemos e o deixássemos aqui, teria havido mortos. Foi tirado do país, mas agora voltou.

Não acredita que estão debilitando a democracia na região?

Se um presidente viola a lei, é corrupto, dá o direito ao povo de reclamar. Nós lideramos esse pedido.

No Brasil, na Argentina ou nos Estados Unidos foram usados métodos institucionais frente à crise como as que você tenta descrever.

Nesses casos, o único que fez a coisa certa foi Lula, retificou o seu rumo.

Não entendi.

Outros mudaram a Constituição, queriam perpetuar-se, como Zelaya.

Continuo sem entender. Mas insisto com o Exército. O general Vázquez recordou a relação de Pinochet com Allende, primeiro leal e depois o depôs com as armas.

Pedimos a Zelaya para não forçar a Constituição. Roubou 700 milhões de lempiras (36 milhões de dólares) e tirou de empilhadeira fundos do Banco Central para a sua reforma constitucional. Gastou milhões para passear de helicóptero e com assessores. Era corrupto, tinha vários sem-vergonhas.

Que papel exercem as Forças Armadas? Sua presença inunda as ruas.

Não estão no governo, defendem a democracia, assim como a Polícia. É para cuidar da reação incendiária de Zelaya. Elas nos apoiaram, pois íamos ao abismo.

Mas tiveram um passado de violações dos direitos humanos e anticonstitucional. Por que lhes dão tanto poder agora?

Não, não. Faz 29 anos que se adaptaram. Hoje levam e trazem as urnas nas eleições, respeitam o poder civil, são um orgulho.

Foi a corrupção, a Constituinte ou tentativas de mudanças sociais o que levou ao golpe?

Depomos Zelaya por seu esquerdismo e corrupção. Ele foi presidente, como liberal, como eu. Mas se fez amigo de Daniel Ortega, Chávez, Correa, Evo Morales.

Perdão...

Deu uma guinada para a esquerda, colocou comunistas no governo e nos preocupou.

Com 75% dos pobres e um sistema esclerosado, as mudanças sociais não se fazem necessárias?

Pode haver reformas, inclusive constitucionais, menos em 3 artigos: território, forma de governo nem reeleição. Mas o que Zelaya prometia era pura farsa.

Como se pode resolver isso e avançar tendo tão baixa pressão fiscal, sem tocar interesses políticos, econômicos, religiosos tão fortes, sem mudanças mais de fundo?

Pode-se falar, sem brigar. Antes de sair assinarei decretos sociais. O Congresso, além disso, pode obrigar as empresas a pagar mais impostos se for preciso, por exemplo.